segunda-feira, 13 de maio de 2013

Por que os professores de sala de aula irão desaparecer

O modelo atual
 
Se você viveu entre os séculos XVI e XXI e teve acesso a uma escola e universidade, saberá descrever com bastante exatidão qual é o modelo clássico de ensino: uma sala de aula (classe - daí o termo) com vários alunos sentados em carteiras e um professor diante deles explicando determinado assunto e se utilizando, talvez, de alguns recursos como quadro, projetor ou até um computador. Esse modelo, se observado de perto, tem várias falhas:

Uma única aula só pode ser ministrada para um número finito de alunos. Esse número costuma variar entre 5 e 300 - se for uma sala ou auditório; se é uma aula mais interativa ou expositiva (palestra). Isso quer dizer, que se, por exemplo, tivermos 300.000 alunos e quisermos que todos eles tenham uma determinada aula, deverão ser ministradas, no mínimo, 1.000 aulas. Se cada professor puder dar 10 horas/aula por dia, precisamos de 100 professores. Tudo isso para ensinar, em tese, apenas um único assunto que cabe numa única aula. O desperdício é óbvio: o professor tem que lecionar o mesmo assunto 10 vezes no mesmo dia, os alunos dependem diretamente da localização geográfica do professor, mais dinheiro tem que ser gasto para pagar cada aula de cada professor, o tempo do professor é perdido executando uma mesma tarefa várias vezes.

Uma mesma aula, dada por um mesmo professor, pode ser ministrada, para prejuízo dos alunos, de formas diferentes: a depender do bom-humor do professor, da sua disposição e de quaisquer outros fatores que venham lhe influenciar, uma aula pode ser muito melhor ou pior que outra ministrada outrora. Isso proporciona assimetria entre os estudantes: não é garantido que todos os alunos que tiveram aulas da mesma matéria e mesmo professor foram expostos ao mesmo conteúdo. É possível que alguns tenham visto muito mais conteúdo, outros podem ter visto o mesmo tópico com perspectivas totalmente diferentes. Outros podem não ter visto nada. Os alunos são totalmente vulneráveis ao professor.

Considerando que professores diferentes lecionam matérias iguais - que é o caso das aulas clássicas - um determinado professor pode passar o conteúdo de forma mais clara e eficiente para os alunos.
Se você estudou numa universidade sabe bem como é isso: os alunos fazem de tudo para pegar matérias com professores com histórico melhor. Alguns são muito rigorosos, outros não têm didática, outros não sabem bem o assunto. São inúmeros os motivos que levam os alunos a preterirem professores em função de outros, mas uma coisa é certa: no final, alunos de professores diferentes veem assuntos diferentes e com abordagens diferentes em sala de aula, mesmo assistindo a mesma matéria.

Ineficiência, dependência do professor, peculiaridades entre professores... Esses fatores que tentei explicar acima mostram como a metodologia aplicada é limitada. Mas antes de propor possíveis soluções, seria interessante listar o que se espera de uma aula - qual o objetivo da aula para os alunos. Eis elas:

O aluno deve ser exposto de forma clara ao conteúdo da matéria;
O aluno deve ter acesso a recursos áudio-visuais que facilitem o aprendizado;
O aluno deve ter acesso fácil à aula - depender pouco de professores específicos (universalidade);
Aulas sobre a mesma matéria devem tera conteúdos iguais;
O conteúdo das aulas deve poder ser revisitado várias vezes;
Alunos devem poder tirar dúvidas nas aulas.

Isso tudo basicamente diz que as aulas devem ser consistentes com o conteúdo, claras e objetivas e que sejam de fácil acesso aos alunos. Isso é exatamente o que não ocorre atualmente.

Aulas em vídeo como alternativa

Se você estudou numa universidade ou, especialmente, fez um cursinho pré-vestibular, sabe que uma aula, na maioria dos casos, é simplesmente uma exposição de ideias e explicações por parte do professor aos alunos sem que haja interação recíproca - é pouco comum o aluno interferir no desenrolar da aula. É óbvio que um professor em sala permite que o aluno lhe profira perguntas, mas não seria absurdo dizer que isso é um detalhe pequeno e pouco útil à aula: além de as perguntas serem esporádicas, elas geralmente são fruto de dúvidas que um aluno específico teve e não, necessariamente, dúvidas da sala como um todo. Além disso, chutando as estatísticas, uma aula de 2 horas por exemplo não passaria 10 minutos, em média, com um professor respondendo a perguntas específicas de alguns poucos alunos. De fato esse número deve ser menor.

Em outras palavras, a presença do professor, embora possa ser útil, não é totalmente necessária. Isso nos possibilita pensar na aula em vídeo como uma solução eficaz para as dificuldades citadas.

Aulas em vídeo podem conter recursos visuais ao máximo - além dos que usualmente são usados, recursos de edição vêm a mão, de forma que técnicas de multimídia podem melhorar, e muito, as aulas. Elas são consistentes e garantem simetria, já que a mesma aula gravada pode ser exibida a inúmeros alunos de forma igual. Os alunos poderiam, em tese, parar e rever a gravação da aula várias vezes, de forma a se adequar a sua capacidade de absorção do conteúdo - ele passa a não depender de uma atenção total e constante da aula, podendo adequá-la a si.

Esses fatores realmente são evidentes, porém alguém poderia dizer: "mas e quanto às dúvidas que poderiam ser tiradas em aula?". Como já dito, essa é uma parte, em geral, mínima das aulas. Não é raro assistir aulas em que nenhuma interação entre aluno e professor ocorre. Além disso, o fato de salas chegarem a ter 300 alunos deixa evidente que perguntas dos alunos não são o objetivo da aula - se cada aluno fizesse uma pergunta de 10 segundos, 50 minutos de uma aula de 60 minutos seriam voltados somente para ouvi-los. Além disso, alunos perguntando a professores sobre o assunto em tempo de aula não somente é pouco relevante no contexto total de uma aula, como pode ser prejudicial: uma pergunta feita por um aluno que não entendeu determinado tópico tira o tempo de aula do outro aluno que entendeu perfeitamente. Pode parecer egoísta - na perspectiva do aluno com dúvida -, mas esse argumento, por si só, derruba a validade de perguntas em aula, pois enquanto a aula é democrática para a totalidade dos alunos, uma reposta a uma pergunta de um único aluno é absolutista - um aluno tem atenção integral do professor naquela resposta.

Se o leitor não está certo se as vantagens de aula em vídeo, embora satisfazendo quase todas as problemáticas citadas, compense a impossibilidade de um professor responder as questões em aula, talvez ele mude de opinião agora: se vários professores gravarem uma aula sobre um determinado assunto, somente a melhor precisa ser exibida. O aluno deixaria, então, de depender do professor e passaria a poder escolher (ou ter escolhido para ele) a aula mais eficiente, com o professor mais preparado e mais didático para aprender o assunto.

Além de possibilitar o aluno de sempre assistir as melhores aulas, ele se torna impedido - e isso é crucial - de assistir as piores. Todo mundo tem um ou dois professores dos quais simpatizava, mas certamente tem vários que detestou ou que não tinham o conhecimento necessário para dar aquela aula. Aulas ruins, além de não entregarem de forma apropriada o conteúdo, podem causar aversão, do aluno, pela matéria. Professores muitas vezes não têm o preparo para dar aulas. Podem até dominar a matéria, mas não sabem como transmiti-la. Se a aula de alguns maus professores fosse um produto, eles não conseguiriam vendê-lo, mas eles vendem o seu currículo que pode ser muito bom mesmo ele sendo um mau professor. Aulas em vídeo acabariam com isso.

Aulas como mercadorias

Não é raro ler sobre teorias quase utópicas e ver que elas desconsideram as condições em que vivemos, como a economia, cultura e contexto. Esta não é o caso. Professores produzindo aulas em vídeo seria, em tese, totalmente viável economicamente; bem como contextualizadas. É muito fácil e barato preparar uma vídeo-aula hoje em dia e estamos acostumados a assistir vídeos em computadores. A maior barreira seria, talvez, a cultural - mas falaremos disso mais adiante.

Para existir um produto como um vídeo de um professor, tem que haver um mercado que o compre. Então eu consigo ver, a priori, 2 possibilidades: uma é a atual, na qual as pessoas podem lucrar postando vídeos na internet e a outra, mais imaginativa, de que haverá um contexto econômico que permita compra e venda de aulas em vídeo. Vou começar explicando a primeira.

Atualmente, em 2013, muitas pessoas ganham algum dinheiro fazendo material para livre acesso na internet. No caso de vídeos, são postados em geral no Youtube e aqueles vídeos com muitos acessos chegam a lucrar com publicidade colocada junto ao vídeo. É óbvio que isso é fora de contexto para aulas em vídeo atualmente: já que existem um mercado estruturado de professores e colégios, são pouquíssimas as pessoas que procurariam esse tipo de conteúdo na internet. Além de não terem o costume, não é algo considerado natural. Uma pessoa hoje diria que assistiu uma aula na Universidade tal numa entrevista de emprego para embasar um argumento, mas dificilmente diria que seu argumento se comprar num vídeo online. É algo ainda economicamente infactível.

Existe, porém, a possibilidade de serem montados sites especializados em aulas online. Isso já é feito, mas ainda nos moldes arcaicos de vídeo-aulas ao-vivo - talvez porque ainda não há hábito. Mas é possível montar um site que lucre com o acesso constante de pessoas a aulas gravadas. Mas mesmo isso ainda é pouco factível, porque aulas em vídeo na internet podem facilmente ser copiadas e pirateadas, de forma que um único acesso pago seria necessário para oferecer, ao grande público, acesso ilimitado ao conteúdo pirateado, gerando prejuízo e tirando incentivo de empreendedores em oferecer tais aulas. Para evitar isso, medidas anti-pirataria teriam que ser tomadas e eu, particularmente, não acredito muito nesse modelo. E agora?

O leitor atento deve ter percebido um detalhe: além de mudar o paradigma de ter o professor presente em cada aula, o modelo proposto acaba por abolir a sala de aula - se o aluno pode acessar o conteúdo na internet, ele não precisaria mais ir a uma instituição de ensino. Então esse modelo mudaria radicalmente a forma como os alunos aprendem - e esse não é o objetivo.

Existem um grande poder no fato de alunos assistirem aulas em grupos - ao final delas, eles poderão exercitar o convívio em grupo e desenvolver uma cognição essencial - a inteligência emocional. Eu não irei entrar em detalhes, mas com certeza a ideia de vários alunos dividindo um mesmo espaço de aprendizagem tem seus méritos. E, diferente de utopias, essa proposta aqui descrita não busca revolucionar, mas simplesmente aprimorar o que já existe - e de forma rápida e eficiente.

Não descartando o que já foi dito sobre as possibilidades do mercado de vídeo-aulas, vou explicar o segundo cenário possível: dado que já existem inúmeras escolas, com salas de aulas e alunos matriculados, e toda uma cultura de se frequentá-las, há uma possibilidade interessante: aulas em vídeo exibidas em salas convencionais. Pode parecer absurdo a priori, pois dada a facilidade que se tem em transportar dispositivos de memória que podem ter milhares de vídeos, bem como acesso a vídeos pela internet, soa estranho só poder exibi-los em salas físicas, com alunos que devem ser levados até elas - parece estranho, mas não é.

Primeiramente vem o argumento da naturalidade: é natural aos alunos e seus pais esse modelo. Eu imagino convencer o leitor de que aulas em vídeo são mais eficazes, mas não imagino convencer pais a tirar filhos das escolas e colocá-los a verem vídeos no Youtube 6 horas por dia. Não haveria mudança nesse aspecto - as aulas teriam horários fixos, salas cheias, mas ao invés de um professor, haveria um computador e uma tela grande e visível a todos. 

O segundo argumento é, novamente, o da qualidade: uma escola poderia escolher as melhores aulas em vídeo dos melhores professores. Todos os colégios poderiam ter aulas garantidamente boas e eficazes. Nunca mais os alunos poderiam reclamar de que tal professor é ruim - a não ser que existam matérias que realmente ninguém é capaz de ensinar bem (não creio) ou se a escola não tiver recursos tais para comprar vídeo-aulas de professores de qualidade (falaremos adiante).

O terceiro argumento é da viabilidade: embora aulas na internet sejam facilmente copiadas e pirateadas, aulas vendidas uma a uma para colégios e exibidas apenas neles - como em salas de cinema - resolvem - pelo menos diminuem bastante - o problema da pirataria. Ou seja, a escola compraria as aulas (ou o direito de exibi-las) de um determinado professor e não as disponibilizaria na internet - sob o argumento de direitos autorais -, mas sim exibiria elas nas suas salas de aula, podendo re-exibi-las inúmeras vezes por dia, sem que elas fossem pirateadas. Tornar-se-ia viável usar vídeo-aulas como elemento do modelo de negócios de escolas e de profissionais do ensino. Sem falar que somente escolas e universidades podem emitir diplomas, então conteúdo acessado fora delas não poderia ser usado oficialmente.

O quarto argumento é o econômico: além de as escolas poderem economizar na folha de pagamento, haveria mudanças significativas para os professores. 
 
Não é raro ouvir que a profissão do professor é mal remunerada. Um economista diria que isso se deve a fatores como, por exemplo, de que o mercado de professores é bastante competitivo, de forma que os professores mais baratos são contratados. Além disso há bastante oferta, já que o treinamento de um professor é pouco rigoroso - basta que ele tenha graduação no assunto e um curso em pedagogia (que em geral é pouco eficaz). Outro aspecto é o retorno econômico que o professor oferece (é a chamada taxa marginal de retorno): pelo menos no Brasil é raro (nunca vi, de fato) alguém escolher uma faculdade ou escola por causa de professores específicos - e eles se comportam quase como commodities. E isso faz muito sentido.

Como dito, os professores dão a mesma aula várias vezes. Essa ineficiência afeta diretamente no bolso deles: como suas aulas são limitadas a suas horas de trabalho por dia, eles não têm como ganhar mais do que trabalham. Além disso, como é muito difícil avaliar a didática de um professor (embora alunos possam facilmente dizer se são bons ou ruins) eles podem ser substituídos por outros sem prejuízo para as escolas - especialmente as públicas. Dificilmente uma escola vai perder alunos ao trocar um professor por outro - só se o que sair for realmente muito bom (e isso tem tudo a ver com o que será dito a seguir).

Colocando de forma simples: professores bons e ruins ganham o mesmo - e pouco. O que fazer se só há professores ruins numa determinada cidade se não oferecer aulas ruins aos alunos? O que fazer se um professor é excelente, mas o salário médio em sua região é baixo? Resposta: vídeo-aulas.

Supondo o modelo de escola exibindo aulas em vídeo nas salas de aula, professores bons e ruins disputariam esse mercado. Os muito bons receberiam muito vendendo suas excelentes aulas, os pouco bons, receberiam menos. Os péssimos teriam que sair do mercado ou melhorar suas aulas. Dessa forma, professores que fossem capazes de ministrar aulas eficientes - e consequentemente levar o conteúdo com qualidade e eficiência até os alunos - seriam bem remunerados e os ruins até excluídos da profissão. Não é difícil de imaginar um mundo sem aulas medíocres a partir desse contexto. 
 
Não é difícil imaginar que determinados professores, excelentes, teriam suas vídeo-aulas levadas a milhões e, em consequência, ganhariam bastante dinheiro - o que os levaria a produzir aulas ainda melhores e faria com que outros professores se esforçassem para entrar nesse mercado tão lucrativo. Professores bons sairiam felizes, alunos aprenderiam e escolas continuariam a existir. Outro ponto importante é que não haveria necessidade de um professor bom estar próximo ao aluno. Mesmo em regiões remotas, seu conteúdo de excelência poderia alcançar as escolas. Não seria necessário, para uma escola, possuir um bom professor para oferecer boas aulas. Educação de qualidade realmente se tornaria universal - ou bem próximo disso.

Capitalismo cruel

Nessa parte do texto, um aspirante a professor poderia, de forma até revoltosa, perguntar: "e os professores que não conseguirem vender suas aulas?". Bem, não é difícil de ver que, no contexto, as escolas tentariam comprar as melhores aulas. Algumas seriam tão caras, que as escolas teriam que comprar aulas de professores não tão bons. Escolas com dinheiro teriam as melhores aulas, as com menos dinheiro talvez não pudessem pagar por aulas consideradas excelentes, mas poderiam comprar boas aulas no mercado de aulas que existiria até chegar num equilíbrio (ou monopólio). E as aulas ruins? Certamente desapareceriam. E se um professor dá uma aula ruim, será que vale a pena empregá-lo como professor? Faria sentido deixar de dar uma aula excelente para 300.000  alunos e pagar um professor excelente, e dar  299.970 aulas medíocres e empregar 99 professores ruins? A resposta é óbvia: como em qualquer outra profissão, o mau profissional tem que ser mal remunerado. 

É possível, sim, que esse modelo chegue a praticamente extinguir o ofício do professor: poucos excelentes professores venderiam aulas para todo o mercado, os ruins não teriam espaço e seriam excluídos.
Mas e daí? Simplesmente esses "excluídos" teriam que fazer outra coisa, talvez algo que façam melhor, já que obviamente dar aulas não é onde eles despontam. Mas e aqueles que sonharem em ser professores e não forem tão bons? Eles ficariam no mesmo lugar que pessoas que sonham ser artistas de cinema, rock stars e astronautas - um mercado para pessoas muito talentosas apenas, que conseguem através do seu trabalho afetar diretamente a vida de milhões (finalmente os bons professores teriam o reconhecimento merecido). Essas pessoas iriam então, por exemplo, para a indústria produzir coisas, ao invés de apenas repassar o conhecimento que adquiriram - e isso seria ótimo para a sociedade.
 
É notável que se tornaria, também, muito fácil avaliar a qualidade das aulas: estando elas disponíveis aos donos de colégio ou profissionais do ensino, eles poderiam assistiar as aulas, avaliá-las, testá-las em turmas, usando resultados de provas e questionários de opinião dos alunos para, enfim, dar uma nota final e um parecer sobre a qualidade delas. Não é difícil ver que colégios poderiam preferir aulas menos  bem avaliadas, mas que fossem em linha com a orientação pedagógica que eles propusessem aos alunos. Somente aulas de qualidade sairiam imunes a esse processo.

Mas então tudo certo: aulas com vídeo, alguns professores ricos, alunos vendo aulas excelentes e os menos qualificados fazendo outras coisas para as quais têm mais aptidão. Mas e as dúvidas dos alunos, que só podem ser tiradas com os professores? E as avaliações?

Essas dúvidas são quase uma pegadinha: elas parecem provar que não há como não haverem professores. Mas isso não é verdade. Assim como o surgimento do cd eliminou a fita-cassete, mas criou a indústria das capas de cd, um novo mercado surgiria: os auxiliares de professores. Esses profissionais teriam que ter tanto - ou mais (não sei) conhecimento que os professores, mas sem a necessidade de serem didáticos e em muito menor quantidade. Eles ficariam à disposição dos alunos, nas escolas, para tirar suas dúvidas - se existissem - e teriam tempo para corrigir provas - que poderiam ser padronizadas inclusive, vendidas junto com as vídeo-aulas. São funções específicas, menos abrangentes como lecionar e, menos complexas - mais baratas talvez, de forma que pudessem ser até exercidas por estudantes mais experientes. Também surgiriam fiscais de sala-de-aula, para garantir que os alunos realmente estariam assistindo aos vídeos; profissionais especializados em edição de aulas e outros. O mercado do aprendizado se organizaria para satisfazer as demandas desse modelo.

Não é difícil ver que se tornaria tão habitual aprender por vídeo-aulas, que um mercado paralelo de aulas online surgiria. As pessoas usariam cada vez mais a internet como fonte de informação de qualidade. Mais e mais conteúdo de qualidade seria produzido e se tornaria disponível. Não seria estranho que alguém sem acesso, sequer, a uma escola, conseguisse assistir todo o conteúdo formal das escolas. Seria a informação chegando a quem nem sonhava em tê-la.

Educação: um sonho?

Existem inúmeras barreiras à universalização da educação. É importantíssimo que pensemos em soluções para tornar o conhecimento cada vez mais acessível, uniforme e de maior qualidade. É sempre difícil, também, enxergar além e encontrar soluções que se distanciem, ainda que pouco, da nossa realidade. A ideia de colocar aulas que atualmente são disponíveis a apenas minorias e limitadas em função da localização física de professores à disposição de toda uma geração que necessita daquele conhecimento não é tão utópica. É óbvio que o modelo poderia não ser único - existem aulas, como as para crianças mais novas, que exigem a presença do professor em sala-de-aula -, podendo coexistir com o modelo antigo. Nada precisaria ser radical nem utópico. Mas também é curioso observar que, mesmo com a invenção de tantos recursos, as aulas atualmente sejam quase idênticas às aulas de 500 anos atrás. O modelo pode ser repensado, melhorado, vendido e comprado. 
 
Eu tenho convicção que o grande desafio do século XXI é levar o conhecimento de qualidade a todos, de forma eficaz. Pela primeira vez na história nós temos tantas ferramentas disponíveis. Vídeo-aulas podem ser uma possível solução, mas certamente o modelo atual não é. Se o leitor não se convenceu das benesses das vídeo-aulas, não tem problema: vamos pensar juntos numa solução melhor. O que não podemos é desistir e acreditar que educação de qualidade é só para alguns. Educação tem que ser - e será - universal.
 
Fim?

Nenhum comentário:

Postar um comentário